Venenos à venda: como substâncias proibidas ainda circulam no dia a dia

“Chumbinho” segue presente em Ribeirão Preto, impulsionado por um mercado clandestino ativo e por lacunas na fiscalização e na notificação de casos

Por João Paulo Menezes

O envenenamento é um dos crimes mais discretos e difíceis de rastrear. Sem marcas aparentes e com sintomas que podem ser confundidos com outras condições clínicas, ele frequentemente escapa da percepção imediata. Em Ribeirão Preto, apesar da proibição do “chumbinho” há mais de uma década, o veneno continua circulando e deixando um rastro constante de intoxicações e mortes de animais e, às vezes, humanos.

Os casos aparecem em diferentes bairros, condomínios e até dentro de residências. Em muitos deles, a substância é utilizada como solução improvisada para controle de ratos ou como forma de eliminar cães e gatos considerados incômodos. O problema atravessa o cotidiano de forma silenciosa, muitas vezes longe das estatísticas oficiais e dos registros policiais.

Em 2025, a Polícia Civil abriu investigação por suspeita de intoxicação criminosa após oito gatos e um gambá serem encontrados mortos próximos a uma colônia de animais, no distrito de Bonfim Paulista. Casos semelhantes também foram registrados em bairros da zona Norte e Oeste, além do episódio envolvendo o cão “Marronzinho”, supostamente envenenado por conflitos de vizinhança em 2018.

Gatos são encontrados mortos em Bonfim Paulista suspeitos de terem sido envenenados - Foto: Arquivo pessoal

Gatos são encontrados mortos em Bonfim Paulista suspeitos de terem sido envenenados – Foto: Arquivo pessoal

Foi o que aconteceu com o assistente administrativo Gabriel Tofoli, que perdeu o cachorro em 2023 após um envenenamento acidental. O animal ingeriu restos de comida contaminados em um terreno baldio próximo à casa onde ele morava.

Segundo Tofoli, o local acumulava lixo e entulho havia meses, mesmo após reclamações feitas por moradores à prefeitura. Com o aumento de ratos e insetos, vizinhos decidiram agir por conta própria.

“Eles colocaram veneno. Eu até avisei que não era uma boa ideia, porque havia outros animais e até pessoas em situação de rua que poderiam ser afetadas, mas mesmo assim fizeram”, conta.

Em um descuido, o cachorro escapou pelo portão aberto e correu até o terreno. Lá, acabou ingerindo uma quantidade de alimento contaminado, que apesar de pequena, foi suficiente para provocar sintomas graves.

“Ele ficou desanimado, não queria brincar. Depois começou a espumar pela boca e ficou muito ofegante, como se tivesse corrido uma maratona”, lembra.

O animal não resistiu. Dias depois, o terreno foi limpo.

“Foi só depois que eu perdi meu cachorro que a prefeitura tomou providência. Infelizmente, precisei perder meu amigo para isso acontecer”, diz Gabriel.

A médica veterinária Kerolyn Carla também conhece de perto os riscos do “chumbinho”. Anos antes de atuar na área, ela perdeu dois filhotes de cachorro dentro da própria casa após um episódio envolvendo a substância.

Na época, a família havia se mudado para um bairro novo, cercado por áreas de mato, onde a presença de ratos era constante. Como solução, decidiram utilizar o veneno, deixando pequenas quantidades no jardim de casa.

Dias depois, durante uma limpeza, a porta do jardim foi deixada aberta e um dos filhotes teve acesso ao local.

“Quando percebemos que ele estava mal, levamos imediatamente ao veterinário. Mas, no desespero, esquecemos a porta aberta de novo e o veneno ficou exposto”, relata Carla.

Enquanto tentavam salvar o primeiro animal, um segundo filhote ingeriu a substância. Por serem muito pequenos, os dois morreram antes de chegar à clínica.

O episódio revela como o uso do “chumbinho” está enraizado em práticas cotidianas, muitas vezes herdadas de contextos rurais e reproduzidas no ambiente urbano sem a devida percepção de risco.

Conhecendo a substância

Apesar do nome popular, o “chumbinho” não é uma substância única. Segundo o químico Bruno Spinosa, trata-se de um termo genérico para produtos vendidos ilegalmente como raticida, sem composição definida.

“Não possui uma composição química padrão. Tradicionalmente, continha aldicarbe, mas hoje pode incluir outros carbamatos e até organofosforados”, explica.

Substância conhecida como chumbinho - Foto: Câmara Municipal de São José dos Campos

Substância conhecida como chumbinho – Foto: Câmara Municipal de São José dos Campos

Essas substâncias são altamente tóxicas e atuam diretamente no sistema nervoso, bloqueando enzimas essenciais do corpo e provocando uma superestimulação que pode levar à parada respiratória em poucos minutos ou horas.

Spinosa explica que os sintomas podem ocorrer logo após ingestão dessas substâncias, sendo os mais comuns: sudorese intensa, salivação excessiva, contração da pupila, vômitos, diarréia e broncoespasmo. Em casos mais graves, podem aparecer secreção pulmonar e convulsões.

O professor ainda alerta que existe tratamento eficaz, mas depende da quantidade ingerida, do tempo que demorou para receber atendimento e do tipo de substância envolvida.

“Se o atendimento for rápido, o paciente pode receber medicamentos como a Atropina, além de outros remédios que ajudam a reverter o efeito do veneno, e também suporte para respirar, se necessário”, afirma Spinosa.

Além dos casos envolvendo animais, o “chumbinho” também aparece em ocorrências envolvendo humanos. Em 2025, a morte de Larissa Rodrigues após ingestão da substância reacendeu o debate sobre a permanência do veneno na cidade. Já em 2026, o Ministério Público denunciou uma jovem acusada de tentar matar o namorado em Ribeirão Preto usando “chumbinho” misturado em um copo de açaí. O caso foi tratado como tentativa de homicídio qualificado.

Divisão de responsabilidade

De acordo com o DataSUS, em 2025 o estado de São Paulo registrou 737 casos de intoxicação por esse tipo de substância, liderando o ranking nacional. Em todo o país, foram mais de 3.300 ocorrências distribuídas em 768 municípios. Porém, o DataSUS não é preciso ao informar o número de casos fatais e existem indícios de subnotificação, inclusive com casos no interior que não aparecem oficialmente na base de dados.

Top 10 Estados com mais registros de intoxicação por Chumbinho em 2025

Os dados ainda revelam um aspecto ainda mais delicado. No estado de São Paulo, a maior parte das intoxicações foi classificada como tentativa de suicídio, somando 652 registros. Em contrapartida, apenas dois casos foram oficialmente registrados como violência ou uso criminoso.

Causas mais comuns de intoxicação por Chumbinho no Estado de São Paulo em 2025

A diferença sugere dificuldades na identificação da real origem das intoxicações e levanta a possibilidade de classificações inadequadas.

A subsecretária de Vigilância em Saúde, Luzia Márcia Romanholi, afirma que a comercialização do produto é crime, sendo responsabilidade das forças policiais a condução de operações e investigações.

“Por tratar-se de produto de uso e comercialização proibida em todo o território nacional, a venda de aldicarbe constitui infração penal”, explica.

Segundo ela, a Vigilância Sanitária atua principalmente no apoio a ações conjuntas e na apuração de denúncias. Apesar de reconhecer o risco à saúde pública, o órgão afirma não obter dados recentes sobre apreensões ou ocorrências relacionadas à substância, orientando que essas informações sejam buscadas junto às autoridades policiais.

Essa divisão de responsabilidades acaba impactando a fiscalização e o “chumbinho” continua sendo encontrado. Segundo a subsecretária, ele aparece com mais frequência em regiões periféricas, em estabelecimentos não sujeitos a licenciamento sanitário, além do comércio informal e comércio eletrônico. Ou seja, a venda acontece fora dos canais oficiais, o que dificulta ainda mais o controle.

Outro ponto levantado por Romanholi é o fator cultural. Ela diz que o uso do “chumbinho” como raticida vem de práticas antigas do meio rural.

“Existe uma cultura popular de uso desse produto como raticida, que acabou sendo levada para o ambiente urbano com o êxodo rural, persistindo a crença de se tratar de um produto muito eficiente para controle de roedores”, afirma.

Para Spinosa, a permanência do “chumbinho” no mercado ilegal está ligada a vários fatores. “Trata-se de um produto de baixo custo, com alta eficácia como raticida, um comércio informal difícil de fiscalizar e de fácil manipulação”, afirma.

Além disso, o professor destaca que substâncias usadas na agricultura podem ser desviadas e chegarem até ambulantes e feirantes. “A produção é artesanal, sem rastreabilidade, as misturas não são controladas e a distribuição acontece em cadeia informal”, completa.

Mesmo com leis que preveem punição, o combate ao “chumbinho” ainda enfrenta muitos desafios. Os casos registrados ao longo dos últimos anos mostram que o veneno continua presente em Ribeirão Preto, principalmente em episódios envolvendo cães e gatos. Entre falhas na fiscalização, lacunas na informação e práticas culturais enraizadas, a substância segue circulando e transformando situações comuns em tragédias silenciosas.