Entre o pânico das abordagens policiais na América do Norte e o alto custo de vida na Europa, o brasileiro sem documentos é empurrado de volta para casa. Na bagagem, além da frustração, sobram dívidas e um país sem preparo para recebê-los.
Por Isabella Capuzzo

Legenda: O difícil caminho de volta ao Brasil após o sonho frustrado no exterior – Foto: Freepik
Para chegar aos Estados Unidos, o mineiro Gabriel Gomes precisou vestir uma pulseira e decorar uma senha. Ele tinha pegado 50 mil reais emprestados com a irmã para pagar um coiote. No México, foi levado para uma chácara onde dividiu o espaço com quase 400 pessoas. Ali, os guias colocaram uma pulseira em seu braço uma senha de identificação. A de Gabriel era “Gold”, ouro em inglês. A ordem era rigorosa. Ele não podia tirar a pulseira, não perdê-la e nunca se separar do grupo.
A viagem, que deveria durar 15 dias, virou uma agonia de três meses e meio. Quando finalmente cruzou o Rio Bravo com a água batendo na cintura e viu o guia cortar a grade de metal da fronteira com um alicate, Gabriel decidiu se entregar à polícia americana. Era uma tática calculada, conhecida nas rotas clandestinas como “cai-cai”. A ideia é que, ao se entregar pacificamente, o imigrante seja levado a um abrigo e ganhe tempo para tentar a legalização.
O “cai-cai” é uma tática clandestina onde o imigrante cruza a fronteira e se entrega voluntariamente à polícia americana para pedir asilo, em vez de tentar fugir. A estratégia é usada principalmente por adultos acompanhados de crianças, já que a lei dos Estados Unidos limita o tempo de prisão de menores, permitindo que a família aguarde o julgamento do processo em liberdade.
Gabriel foi fichado, recebeu uma tornozeleira eletrônica e um telefone celular configurado apenas para que o governo rastreasse seus passos. Ele se sentia seguro, afinal, estava cumprindo todas as regras. Mas a ilusão durou pouco. “Eu fui para os Estados Unidos com minha ex-mulher e meu filho que tinha três anos na época. Eu queria tentar uma vida nova, mas achei muito burocrático a questão do visto e aí decidi que iria com a ajuda de um coiote. Eu passei por muitos perrengues, não foi uma trajetória curta e eu vi muitos outros brasileiros em situações bem piores que a minha que estavam indo para o outro lado do mundo para tentar sobreviver. Eu sentia isso também. Na minha cabeça, essa era a única forma de sustentar minha mulher e meu filho”, conta.
Durante aqueles curtos dois meses após cruzar o rio, Gabriel finalmente sentiu o gosto da estabilidade. Ele conseguiu arrumar um emprego como pintor, e a rotina de acordar cedo e sujar as mãos de tinta lhe dava a certeza de que a vida, enfim, estava andando para frente. O suor do trabalho honesto trazia alívio quando o dinheiro começou a aparecer de forma mais rápida. Ele acreditava de coração que, andando na linha e colaborando com o monitoramento do governo, era só uma questão de tempo até conseguir se legalizar. A confiança era tanta que o trauma da travessia já começava a dar lugar à esperança.

Legenda: Migrantes cruzam o Rio Bravo entre México e os EUA em Matamoros – Foto: Fernando Llano/AP
Por ter se entregado voluntariamente na fronteira, Gabriel vivia sob um pacto de vigilância que era rigoroso, mas parecia previsível. Toda semana, ele precisava “bater ponto” no centro de imigração para provar que estava seguindo as regras. Com o tempo, o medo de estar diante dos oficiais foi dando lugar ao costume. Afinal, os encontros pareciam inofensivos. As perguntas dos agentes eram sempre as mesmas, repetidas como um roteiro automático: queriam saber se havia comida na casa dele, se ele gostava de morar no país e se a mulher e o filho estavam bem.
O monitoramento continuava até fora dali. O celular fornecido pelo próprio governo americano podia tocar a qualquer hora do dia, sem aviso prévio. Os agentes ligavam de surpresa só para checar onde ele estava e como estava indo. Gabriel atendia a todas as ligações. Respondia, colaborava e acreditava de coração que aquela obediência seria o seu passaporte para a liberdade definitiva.
Mas toda essa esperança que ele havia criado em tão pouco tempo acabou desmoronando naquele mês de outubro de 2025. Quando Gabriel compareceu a mais uma dessas reuniões de rotina, acompanhado da família e com a mesma tranquilidade das semanas anteriores, o que era para ser apenas uma formalidade burocrática virou uma emboscada. A porta da sala simplesmente se fechou, calando as perguntas amigáveis de sempre, e os agentes anunciaram a deportação imediata.
“Eles entregam pra gente uma bolsa, um saco plástico. Nesse saco, você tem que colocar todos os seus pertences”, relembra Gabriel sobre os seus últimos instantes de liberdade em solo americano. Não houve tempo para voltar à casa que havia alugado, recolher suas ferramentas de pintor ou se despedir de qualquer pessoa. A vida que ele construiu com tanto suor foi apagada ali mesmo, dentro daquela sala.
Sem aviso prévio, sem direito a uma ligação ou qualquer chance de defesa, o mineiro foi embarcado em um voo fretado direto para o Brasil. No lugar dos dólares e do futuro que planejava construir, ele levou na bagagem apenas uma dívida implacável de 50 mil reais e o luto por um sonho que desmoronou em exatos sessenta dias.

Legenda: Migrantes caminham por uma barreira de arame farpado para os Estados Unidos depois de cruzar o Rio Bravo de Matamoros, México – Foto: Fernando Llano/AP
O medo que esvazia as ruas
A história de Gabriel ilustra o lado mais agressivo de um fenômeno que vem batendo recordes. Em 2025, o número de brasileiros deportados dos Estados Unidos chegou a 3.294 pessoas, um aumento de quase 100% em relação ao ano anterior. Esse aperto na fiscalização não poupa ninguém. Ao longo das últimas três gestões presidenciais, de Barack Obama, Joe Biden e Donald Trump, mais de 18 mil brasileiros foram expulsos. Hoje, a estimativa do governo americano é que 38 mil brasileiros estejam na fila aguardando a ordem final de deportação.
Mas a expulsão não acontece somente nos voos fretados sob escolta policial. Muitas vezes, ela é provocada por uma tática de sufocamento. O governo torna a vida de quem não tem documentos tão insuportável e assustadora que a pessoa decide ir embora por conta própria.
Foi o que aconteceu com Flávia Sousa. Moradora de Ipatinga, em Minas Gerais, ela se mudou para Marlborough, no estado de Massachusetts, em 2021. Foi com o marido e dois filhos pequenos, com o plano de juntar dinheiro para terminar de construir sua casa no Brasil. Ficaram quase cinco anos. Conseguiram trabalhar e guardar dinheiro, mas a paz acabou no início de 2025, quando as operações policiais se tornaram frequentes e imprevisíveis. O medo tomou conta da comunidade.
“Quando foi no finalzinho de janeiro, logo quando o Donald Trump assumiu, ele já começou a pegar pessoas na rua. Parava carros de pessoas indo trabalhar, batiam em casas. O condomínio onde eu morava tinha muitos brasileiros e a gente tinha um grupo de WhatsApp. Nesse grupo, todo mundo falava que estava com medo, que tinha medo de sair de casa. Começou a ficar muito assustador”, detalha Flávia.
O desespero interrompia a rotina das formas mais brutais: “Teve caso de pessoas que assim, saíram de manhã, deixaram lá talvez assim uma caixa para descongelar para fazer no jantar. E foram pegas na rua e de lá já vieram para o Brasil. Nem tiveram como voltar em casa. Então, assim, a gente tinha muito medo disso. Teve pais que foram pegos, as crianças foram encaminhadas para abrigo”.
O terror maior tinha nome e era chamado por Flávia de “efeito colateral”. A polícia saía com um alvo específico, mas quem estivesse por perto e não tivesse documentos era levado junto. “Eles falavam muito do efeito colateral. Que às vezes eles queriam, por exemplo, pegar o José, só que o José não tava em casa e aí o João tá passando, também não é documentado, então eles não vão falar: ‘Não, mas eu vim pegar o José’. O João não tem nada a ver com isso. Não, então o João também era levado”, explica a imigrante.
O risco de estar no lugar errado na hora errada paralisou as famílias. O silêncio tomou as ruas, os condomínios e afetou até o comportamento na internet. A pesquisadora e doutora em comunicação Camila Escudero, que estuda redes migratórias, explica que o medo quebrou a base de sobrevivência do brasileiro no exterior.
“O pânico desidrata a rede de apoio. Nesses grupos de acesso público não há muita movimentação porque há o receio da identificação. Num momento de políticas migratórias mais restritivas, as pessoas têm medo de colocar coisas nas redes e serem rastreadas”, sentencia a especialista.
Para Flávia e sua família, a pressão psicológica ultrapassou o limite do suportável, corroendo qualquer brilho que o “sonho americano” ainda pudesse ter. “A gente tinha muito medo disso. Apesar de que a gente não estava devendo nada, mas aconteceu muitas pessoas que foram presas nesse efeito colateral”, diz ela.
“Eu nunca gostei, assim, muito de morar lá. Eu fui fazendo da sorte o tempo que eu estava lá, mas gostar mesmo, eu não me sentia em casa, eu não me sentia tranquila e no último ano também ficou muito mais difícil por causa da perseguição”. Eles retornaram no prazo estipulado, aliviados por não terem sido capturados no caminho.

Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA – Foto: Flickr
A conta que não fecha em Portugal
Se nos Estados Unidos o imigrante foge das viaturas da polícia, na Europa a barreira é o dinheiro. Curiosamente, antes de tomar a decisão extrema de se endividar para cruzar a fronteira mexicana e encarar a travessia pelo Rio Bravo, Gabriel Gomes tentou o caminho que parecia mais lógico e seguro.
Ele atravessou o Atlântico em direção a Portugal. No país, ele passou a fazer parte da maior comunidade estrangeira legalizada no país, que hoje conta com mais de 368 mil brasileiros. No papel, tudo parecia o cenário perfeito para recomeçar. Há a facilidade do mesmo idioma, a promessa de segurança nas ruas e a sedutora ilusão de receber um salário em euros. Mas a realidade do dia a dia logo se tornou maçante e desafiadora para Gabriel.
“Antes de ir ilegalmente para os Estados Unidos, eu estava em Portugal. Só que as coisas lá estavam muito complicadas. Porque Portugal, para trabalho até tem, mas as condições para receber não eram boas. Eu não estava feliz e não estava conseguindo proporcionar o básico para a minha família”.
A vulnerabilidade de estar longe de casa o transformou em alvo fácil para a exploração de quem contrata mão de obra barata. “Isso porque às vezes o pessoal passa muita perna no imigrante, né? Eu já estava meio cabisbaixo, chateado com essa questão. Aí eu falei: ou eu volto para o Brasil ou eu junto o dinheiro, vou para os Estados Unidos. Foi então que a minha irmã decidiu me ajudar e eu fui”, relembra.
A frustração de Gabriel está longe de ser um caso isolado. Ela reflete um padrão de rejeição que começa muitas vezes no próprio aeroporto, antes mesmo do estrangeiro conseguir pisar na rua. Em 2024, de todas as pessoas que foram barradas e impedidas de entrar em Portugal, impressionantes 85% eram do Brasil. E para aqueles que conseguem carimbar o passaporte e alugar um quarto, a conta no fim do mês se torna o verdadeiro carrasco.
O sociólogo e professor da Universidade de Coimbra, Pedro Góis, estuda a fundo essa engrenagem que tritura os sonhos de quem chega. Ele quebra o mito fácil de que o imigrante vai para a Europa e fica desempregado. A esmagadora maioria trabalha, e trabalha muito. O colapso, segundo o professor, acontece porque a estrutura econômica do país simplesmente não acompanha o custo de moradia e alimentação. Góis traduz essa dificuldade em uma matemática dolorosa e inquestionável.
“O limiar da pobreza em Portugal é de cerca de 600 euros mensais por membro de uma família. Uma família de dois adultos e duas crianças tem que ter 2.400 euros por mês para não ser considerada pobre”.
pedro góis
A conta bate de frente com o abismo da realidade do mercado de trabalho europeu. Quando o brasileiro vê o valor do salário mínimo português, fixado em 930 euros e converte para reais, ele se ilude achando que fará um bom dinheiro. O problema é que o aluguel, o supermercado e as contas básicas são cobrados em euros, engolindo quase toda a renda em poucos dias. “O salário mínimo é de 930 euros. Não é possível viver com esse dinheiro na maioria das cidades”, alerta o sociólogo.
Essa asfixia financeira é o que a academia chama de “expulsão estrutural”: o Estado não precisa colocar o imigrante algemado num voo de volta, ele simplesmente torna impossível a sua sobrevivência. “A vida não se adequa, e quando o projeto não corre bem, as pessoas têm que voltar”, conclui Góis.

Um retrato em dados da dura realidade enfrentada pelos imigrantes no exterior – Arte: Isabella Capuzzo
O abraço vazio na volta para casa
Voltar para o Brasil consegue ser, muitas vezes, mais doloroso do que a despedida. Quando o avião pousa e o imigrante pisa novamente no chão de cidades como Governador Valadares ou Ipatinga, no interior mineiro, ele espera encontrar o conforto de casa. O que ele encontra, porém, é um abraço vazio do Estado. Não há um guichê de acolhimento nos aeroportos, não há um manual de como recomeçar e não há sequer um orçamento reservado no Ministério dos Direitos Humanos para quem chega de mãos atadas e cheio de dívidas. Programas recentes, como o “Aqui é Brasil”, até tentam jogar uma boia para quem está afundando, mas esbarram na instabilidade da nossa política.
Agentes do programa ‘Aqui é Brasil’ durante ação de repatriação de 69 brasileiros que vieram deportados dos Estados Unidos – Foto: Divulgação/MDHC
A pesquisadora Camila Escudero vai direto ao ponto para explicar o problema dessa rede de apoio frágil: “O que nós temos são políticas públicas de governo, e não de Estado. Troca o governo, acaba a continuidade”. Isso cria um clima de insegurança constante que adoece ainda mais a mente de quem já volta machucado.
Para definir o vazio de quem chega, Camila usa uma expressão chamada de “dupla ausência”. Na prática, isso significa que voltar para casa é como imigrar de novo. “O indivíduo emigra ao sair e emigra novamente ao retornar, chegando a um espaço que já não reconhece”, reflete a especialista. A rua pode ser a mesma, o bairro pode ser o mesmo, mas o tempo passou. Os amigos seguiram com suas vidas, e o imigrante que retorna não é mais a pessoa de anos atrás. Se esse retorno acontece na marra, debaixo de uma ordem de deportação, a dor é em dobro. A pessoa aterrissa no Brasil sentindo-se uma criminosa, mesmo que o seu único “delito” tenha sido a vontade de ter uma vida melhor.
Para Flávia, o desembarque em Minas Gerais teve o gosto doce da liberdade reconquistada. “Quando desci no aeroporto aqui já foi libertador, porque você entende o que todo mundo está falando, é muito bom. Tem essa questão da língua, mas também foi como respirar de forma livre sem me preocupar com o que poderia acontecer com a minha família. A pequena compra que você vai no mercado e faz, você não precisa ficar raciocinando para ver como é que você vai falar, não compara com a liberdade que a gente tem de viver aqui, de poder sair a hora que quer”.
Mas ela tem plena consciência de que faz parte de uma minoria que conseguiu voltar no próprio tempo, com a casa erguida no Brasil. Pelas telas do celular, ela ainda escuta os ecos do terror de quem ficou pelo caminho. “Tem gente que volta por medo e se arrepende”, lamenta Flávia. “É muito triste a pessoa ser presa e ter que retornar sem conseguir nem metade dos objetivos”.
