TRABALHAR, ARRISCAR, SOBREVIVER: O QUE OS APLICATIVOS NÃO MOSTRAM SOBRE QUEM DIRIGE

Relatos de violência, jornadas exaustivas, prejuízos financeiros e ausência de proteção expõem a realidade de motoristas de aplicativo, consumidores reconhecem que conforto esconde o custo humano.

Quarta-feira, às 20h. Após mais de quatro horas ao volante, o motorista Thiago Santana decide parar por alguns minutos para esticar as pernas em frente à UPA Nelson Mandela (UPA Norte), em Ribeirão Preto. O movimento era intenso na Avenida General Euclides Figueiredo, onde fica um supermercado ao lado da unidade de saúde. Vários carros passavam pela via, enquanto diversas pessoas entravam e saíam do local, além de circularem pela unidade de saúde e pela farmácia ao lado. Mesmo com tanto movimento
ninguém percebeu o que estava acontecendo naquele momento.

Ao retornar para o veículo, Thiago foi abordado por dois homens armados.

“Eles me obrigaram a entrar no carro. Um foi dirigindo, e o outro ficou atrás, com a arma apontada, pedindo dinheiro, pedindo Pix.”

Durante cerca de 15 a 20 minutos, ele permaneceu sob ameaça, sendo agredido e pressionado a transferir valores aos criminosos. Pouco antes, o motorista havia feito uma transferência de R$1.000 para a esposa, para pagar o aluguel, o que salvou a situação de ser ainda pior. Porém, devido a quantidade de transferências de alto valor, o sistema bancário bloqueou a operação por suspeita de fraude, o que intensificou a violência por parte dos assaltantes.

“Eles começaram a me agredir mais. É um tempo que não passa. Parece que você fica preso ali por horas.”

Os dois criminosos que estavam com Thiago, um dirigindo o carro e o outro com a arma apontada para a cabeça do refém, o levaram até a comunidade Mário Covas, na zona Norte da cidade. O rapaz foi abandonado na região do Anel Viário Contorno Norte, na Rodovia Alexandre Balbo, nas proximidades dos Serviços Ambientais de Ribeirão Preto.

Após o sequestro, os criminosos fugiram levando o carro, o celular e uma quantia de R$200 da vítima. Assim que foi liberado, Thiago correu para pedir socorro aos funcionários da empresa Ambiental. Depois de se acalmar, dirigiu-se a uma delegacia, onde registrou o boletim de ocorrência.

O veículo foi recuperado pelo BAEP 15 dias depois, na cidade de Franca. Não há informação sobre se os dois autores do crime foram presos. O crime aconteceu em 2023.

“O mais difícil não foi o roubo. Foi estar dentro do meu próprio carro, sem poder fazer nada”, lamenta. Mesmo após o episódio, ele afirma que não recebeu qualquer tipo de suporte da plataforma. Segundo o motorista, não houve acompanhamento, auxílio financeiro ou apoio psicológico após o crime.

O caso de Thiago não é isolado. Um levantamento da startup GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, divulgado em 2024, aponta que 59,1% dos motoristas de aplicativo já sofreram algum tipo de violência ou assédio durante o exercício da profissão.

Os números da violência também aparecem em dados oficiais divulgados em 2023. Informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), mostram que os roubos contra motoristas de aplicativo no
estado de São Paulo cresceram mais de 80% em apenas um ano, passando de 2.223 casos em 2022 para mais de 4 mil ocorrências em 2023.

Em Ribeirão Preto, a insegurança também se tornou recorrente. Em 2018, a Polícia Militar chegou a se reunir com representantes dos aplicativos após uma sequência de assaltos contra motoristas na cidade.

A utopia da uberização

Assim como milhares de motoristas, Thiago foi seduzido por uma promessa simples: flexibilidade, autonomia e renda imediata. Na tela do celular, poucos toques são suficientes para garantir uma corrida ou uma entrega.

Segundo dados do IBGE divulgados em outubro de 2025, cerca de 1,7 milhão de pessoas no Brasil utilizam plataformas digitais (transporte, entregas e serviços) como trabalho principal. Esse número representa 1,9% da população ocupada no setor privado, um crescimento de 25,4% em relação a
2022.

A maioria atua sem vínculo formal, sem garantias trabalhistas e com baixa previdência. Isto é, à ausência de contribuições dos trabalhadores de aplicativos ao sistema de Seguridade Social (INSS). Isso resulta em uma proteção social fragilizada, onde motoristas e entregadores ficam sem cobertura para doenças, acidentes de trabalho, licença-maternidade ou aposentadoria futura.

Motoristas trabalham sob pressão, assumem prejuízos e enfrentam violência, muitas vezes sem qualquer tipo de respaldo. Mas, a pergunta é: o que, de fato, sustenta o modelo dos aplicativos?

Segundo estudos sobre a chamada “uberização” do trabalho, esse modelo se sustenta na transferência de riscos e custos para os trabalhadores, além da ausência de direitos trabalhistas. Autores como Ricardo Antunes apontam que a aparente autonomia esconde relações de trabalho precarizadas.

Ih, deu perda total!

Se o risco da violência é frequente, os problemas e acidentes no trânsito também não ficam para trás. O motorista Everton Messias, de 45 anos, que atua na plataforma há 45 anos, relata um acidente que terminou com o carro completamente destruído.

O caso aconteceu enquanto ele subia a Avenida Monteiro Lobato, no cruzamento com a Rua Vereador Antônio Nogueira de Oliveira. O motociclista que provocou o acidente vinha no sentido da Avenida Patriarca. Everton seguia para buscar um passageiro na UPA Vila Virgínia (Dr. Marco Antônio Sahão).

“Eu só senti a batida. O motoqueiro não parou no ‘pare’ e acertou minha lateral. O carro deu perda total.”

O impacto foi violento. O veículo em que ele estava sofreu perda total. O motociclista teve ferimentos graves, com exposição da perna. Tudo isso foi presenciado pelo motorista, ainda sentado ao volante, que acreditou, naquele momento, que havia ocorrido uma morte.

“Eu achei que ele tinha morrido. Foi desesperador.”

Apesar da gravidade do acidente e da impossibilidade de trabalhar, ele também afirma que não recebeu qualquer tipo de apoio da plataforma e ficou mais de três meses sem trabalhar e passando por problemas financeiros.

“A plataforma só lamenta o ocorrido. Não ajuda em nada.”

Sem renda, precisou recorrer à rede pessoal.

“Um amigo me emprestou dinheiro. Foi assim que consegui segurar.”

Assim como no caso de Thiago, não houve qualquer suporte efetivo da plataforma após o acidente, deixando o prejuízo e as consequências integralmente sob responsabilidade do motorista.

Trabalhar cansado não é exceção, é regra

A promessa de flexibilidade esbarra na realidade das metas. Sem salário fixo, o rendimento depende diretamente do tempo na rua. Thalyson Silva resume a lógica:

“Se eu não bato a meta, não volto pra casa.”

O IBGE, com base na PNAD Contínua de 2024, observa que a renda superior se deve a jornadas mais extensas. Motoristas de aplicativo trabalharam, em média, 44,8 horas semanais, enquanto os demais trabalhadores cumpriram 39,3 horas. Na prática, isso significa dias inteiros dirigindo, muitas vezes à noite.

“Tem dia que eu estou exausto, com sono, mas continuo. Porque se eu parar, não ganho.”

A pressão não vem apenas da necessidade financeira, mas também do próprio sistema. As plataformas de transporte por aplicativo operam com um modelo em que definem o preço das corridas, aplicam tarifas, utilizam algoritmos para distribuir as viagens entre os motoristas e aplicam punições.

Segundo a Uber, por exemplo, o valor pago pelo passageiro pode variar de acordo com demanda, distância e tempo estimado, enquanto o repasse ao motorista depende de fatores como tarifa base, quilometragem e promoções vigentes.

Na prática, porém, motoristas relatam dificuldade em prever quanto irão receber por corrida. Ainda de acordo com a Uber, a chamada “taxa de serviço” pode ficar, em média, entre 30% e 40% do valor pago pelo passageiro, embora esse percentual possa ser maior em alguns casos. Outras plataformas, como a
99, também adotam modelos semelhantes, afirmando que a comissão varia conforme a categoria e as condições do mercado local.

Para entender o impacto disso na renda do motorista, é possível simular uma corrida de R$20. Considerando uma taxa média de 30% da plataforma, cerca de R$6 ficariam com a empresa, restando R$14 para o motorista. No entanto, esse valor ainda não representa o lucro real, já que os custos
operacionais são totalmente arcados pelo trabalhador.

O combustível é um dos principais gastos, segundo os motoristas de aplicativo. Supondo um consumo médio de 10 km por litro e um preço de aproximadamente R$6 por litro, uma corrida de 8 km consumiria cerca de R$4,80 em combustível. Isso reduziria o ganho líquido imediato para aproximadamente R$9,20. Vale destacar que esse cálculo ainda não considera os custos indiretos, como manutenção, troca de óleo, pneus, seguro e a depreciação do veículo.

Além dos preços, também existem regras. Segundo a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, empresas do setor utilizam sistemas automatizados para avaliar o desempenho, definir prioridades na distribuição de corridas e aplicar bloqueios ou suspensões. Isso significa que, embora sejam formalmente autônomos, muitos motoristas operam sob regras rígidas, com pouca transparência em relação aos critérios e às decisões.

“Existe uma pressão constante. Se você começa a recusar muitas corridas por serem distantes ou perigosas, o aplicativo te penaliza e você fica ‘na geladeira’, sem receber novas chamadas”, confirma Thalyson.

Nesse cenário, a autonomia do trabalhador é relativa.

“Mesmo podendo escolher quando ligar o app, a necessidade de pagar as contas impõe o limite.”, desabafa.

Muito trabalho, pouco retorno

Apesar das longas jornadas, o retorno financeiro é instável. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base na PNAD Contínua de 2024, o rendimento médio mensal dos motoristas de aplicativo gira em torno de R$2.766.

Ele relata trabalhar cerca de 12 horas por dia para garantir aproximadamente R$200 líquidos.

“Você trabalha o dia inteiro e não consegue nem aproveitar a família.”

Cerca de 71,1% dos trabalhadores de aplicativo atuam de forma informal, sem carteira assinada ou CNPJ, contra 44,3% da média nacional.Segundo dados do IBGE divulgados em outubro de 2025, com base em informações referentes a 2024, 86,1% dos trabalhadores plataformizados atuam por conta própria, enquanto apenas 6,1% possuem algum tipo de vínculo empregatício.

A informalidade ainda é uma característica marcante entre os trabalhadores de aplicativos no Brasil. Dados do IBGE, referentes ao 4º trimestre de 2022 e divulgados em 2023, mostram que apenas 35,9% desses trabalhadores contribuem para a previdência social, um índice inferior ao dos demais ocupados, que chega a 61,9%. 

A pesquisa também revela que a grande maioria (86,1%) atua por conta própria, enquanto apenas 3,2% possuem vínculo formal de emprego, evidenciando a predominância de relações de trabalho sem garantias tradicionais.

Muito trabalho, pouco retorno

No cotidiano, os problemas não se limitam ao trânsito ou à violência. Há também conflitos frequentes com passageiros.

“De 20 corridas, pelo menos três ou quatro pessoas tentam não pagar”, relata Thalyson.

Segundo ele, há uma confusão recorrente sobre a possibilidade de pagamento em um outro momento.

“Eles falam que vão pagar depois, mas não é assim que funciona. A gente acaba ficando no prejuízo.” 

Explicando, quando o passageiro não quita o valor no momento do desembarque, o profissional fica sem receber imediatamente e ainda arca com os custos da viagem, como combustível e desgaste do veículo. Embora plataformas como a Uber e a 99 registrem a dívida no sistema e possam cobrar o usuário posteriormente, não há garantia de ressarcimento rápido, o que impacta diretamente a renda diária de quem depende das corridas para sobreviver.

Para evitar perdas, ele adota uma estratégia extrema:

“Eu tranco a porta e falo que vou pra delegacia.”

Durante a noite, o assédio também se torna parte da rotina. Pelo chat do aplicativo, Thalyson recebe propostas que variam de R$300 a R$600, valores que, segundo ele, não têm relação com gorjetas, mas com abordagens de natureza sexual.

“Tem muita proposta indevida. Eu cancelo e sigo.”

O conforto que não mostra o custo

Do outro lado da tela, usuários reconhecem que o principal critério de escolha é o preço. O estudante Miguel Defendi admite que a decisão, na maioria das vezes, não passa por uma reflexão mais profunda.

“Quando é mais barato, é melhor. A gente não pensa se alguém está sendo mal pago.”

A lógica da praticidade se sobrepõe à reflexão.

“Você só quer chegar no destino. Não pensei nisso na hora.”

Ele reconhece que atitudes comuns, como cancelar ou não oferecer gorjeta, acontecem sem considerar o impacto para o motorista.

“A gente só pensa quando para pra refletir, tipo agora.”

Miguel também admite que, mesmo sabendo das condições de trabalho, o comportamento dificilmente muda.

“Se tiver uma opção mais barata, eu vou escolher a mais barata.”

Já a estudante Alice Biotti traz um olhar mais ambíguo sobre o uso dos aplicativos. Usuária frequente, ela relata um dilema constante, especialmente em situações como dias de chuva.

“Se pede, você sabe que a pessoa está correndo risco. Se não pede, ele não ganha.”

Ela também aponta falhas estruturais, principalmente na questão da segurança. “O motorista precisa colocar foto, mas o passageiro não. Isso é um risco.”

Apesar disso, reconhece que, no cotidiano, o uso está diretamente ligado à praticidade.

“No dia a dia, é comodidade. A gente não pensa muito além disso.”

Alice também relata episódios que revelam tensão na relação entre usuários e motoristas, como cancelamentos e conflitos durante corridas, além de perceber o desgaste dos trabalhadores.

“Já vi gente estressada, já vi gente cansada ”, conta.

Uma engrenagem desigual

A estrutura do setor ajuda a contextualizar esse cenário. A maioria dos trabalhadores atua no transporte de passageiros (58,3%), enquanto 29,3% estão nas entregas, segundo dados do IBGE divulgados em outubro de 2023.

O perfil dos trabalhadores de aplicativos no Brasil é majoritariamente masculino. Segundo dados do IBGE, 83,9% são homens, enquanto as mulheres representam apenas 16,1% da categoria. A maior parte desses profissionais tem entre 25 e 39 anos, faixa que concentra 47,3% do total. Em relação à escolaridade, 59,3% possuem ensino médio completo ou superior incompleto. 

Os dados fazem parte de um levantamento divulgado pelo IBGE em outubro de 2025, com base em informações referentes a 2024, que traça um retrato atualizado dos trabalhadores que atuam por meio de plataformas digitais no país.

Sem vínculo formal, esses profissionais assumem a totalidade dos riscos da atividade, do combustível ao acidente, da manutenção à violência.

Enquanto isso, a demanda cresce sustentada pela promessa de rapidez, praticidade e baixo custo.

Autonomia ou controle imaginário?

No campo jurídico, o debate está longe de consenso. Para o advogado Ricardo Monnazzi, a resposta depende do conceito adotado. Ele afirma que, sob a ótica tradicional, não há vínculo empregatício, devido à liberdade de horários e à possibilidade de recusa de corridas.

Por outro lado, aponta a existência da chamada subordinação algorítmica. “Os algoritmos distribuem tarefas, definem preços, avaliam desempenho e aplicam sanções.”

Ainda assim, ele não defende o enquadramento automático na legislação trabalhista.

“O trabalhador é mais próximo do autônomo. Mas isso não significa ausência de proteção.”

Para ele, o caminho está em uma regulamentação intermediária, com garantias mínimas, como seguro contra acidentes, proteção em casos de violência e limites de jornada.

Um sistema sustentado por contradições

A chamada “uberização” se sustenta em uma lógica paradoxal: oferece liberdade, mas exige disponibilidade constante; promete autonomia, mas impõe regras; gera renda, mas transfere riscos.

Enquanto usuários ganham tempo e praticidade, trabalhadores consomem custos, perigos e incertezas.

E, no meio desse modelo, há um consenso silencioso:

“Com medo ou não, a gente tem que encarar.”

“Seríamos todos uberizáveis?”

O debate sobre o trabalho por aplicativos vai além da rotina de motoristas e entregadores. Para a socióloga Ludmila Costhek Abílio, uma das principais pesquisadoras do tema no Brasil, a uberização representa uma transformação mais profunda nas relações de trabalho contemporâneas.

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), a pesquisadora afirma que a lógica das plataformas digitais não se limita apenas aos aplicativos de transporte ou entrega.

Segundo Ludmila, o modelo cria uma dinâmica marcada pela informalidade, pela instabilidade e pela transferência dos riscos ao trabalhador. Para ela, o discurso da autonomia muitas vezes mascara uma relação marcada pelo controle algorítmico.

“A uberização não é só trabalhar por aplicativo”, afirma a pesquisadora na entrevista ao IHU.

Embora os trabalhadores possam escolher quando ligar o aplicativo, são constantemente pressionados por metas, avaliações, taxas, distribuição de corridas e possibilidade de bloqueios.

Na prática, isso significa que os profissionais assumem custos como combustível, manutenção, seguro e desgaste do veículo, enquanto as plataformas mantêm controle sobre o funcionamento do trabalho sem estabelecer vínculo formal.

A pesquisadora também aponta que a chamada “uberização” cria uma lógica de disponibilidade permanente, em que o trabalhador precisa permanecer conectado e produtivo para garantir renda.

“Mesmo podendo escolher quando trabalhar, o trabalhador permanece subordinado às dinâmicas da plataforma”, defende.

O conceito dialoga diretamente com a realidade relatada pelos motoristas entrevistados nesta reportagem, marcada por jornadas extensas, insegurança financeira, violência e ausência de proteção social.

Em um cenário cada vez mais digital, Ludmila Costhek Abílio questiona até que ponto essa lógica poderá se expandir para outras profissões. Afinal, como a própria pesquisadora provoca: “seríamos todos uberizáveis?”

O sistema bilionário por trás dos aplicativos

O crescimento das plataformas de transporte por aplicativo não aconteceu sem custos, nem sem conflitos. Criadas no Vale do Silício sob a lógica da chamada “economia do compartilhamento”, empresas como a Uber expandiram rapidamente suas operações ao redor do mundo, muitas vezes antes mesmo da existência de regulamentação específica.

Fundada em 2009, a Uber operou por anos acumulando prejuízos bilionários enquanto ampliava presença global. Segundo relatórios financeiros da própria empresa, reunidos na plataforma de relações com investidores, a companhia acumulou mais de US$30 bilhões em perdas operacionais entre 2014 e 2022.

Esse cenário começou a mudar recentemente. De acordo com o relatório anual de resultados da Uber, a empresa registrou, em 2023, receita global de aproximadamente US$37,2 bilhões e lucro líquido superior a US$1 bilhão, marcando uma virada histórica após anos de prejuízo.

O mesmo modelo se repete em outras plataformas. A Didi Chuxing, controladora da 99, também opera com receitas bilionárias. Segundo dados financeiros divulgados pela própria companhia ao mercado, a empresa registrou receita anual na casa de dezenas de bilhões de dólares.

No entanto, enquanto os números crescem, também aumentam as denúncias e investigações.

Brasil, Europa e Estados Unidos da América

No campo jurídico, o modelo das plataformas também enfrenta disputas em diferentes partes do mundo, e não há consenso.

No Brasil, o debate ainda está em construção. Segundo o Ministério Público do Trabalho, há investigações em andamento que discutem a relação entre plataformas e motoristas, especialmente quanto à ausência de vínculo empregatício e à transferência de riscos da atividade.

Já na Europa, o cenário é mais avançado. De acordo com o Parlamento Europeu, em 2024 foi aprovada uma norma que estabelece critérios para reconhecer trabalhadores de plataformas como empregados, caso haja elementos de subordinação, como controle de preços, supervisão de desempenho e restrições operacionais.

Nos Estados Unidos, as decisões variam por estado. Segundo o governo do estado da Califórnia, a chamada “Proposition 22”, aprovada em 2020, manteve os motoristas como trabalhadores independentes, mas garantiu direitos mínimos, como remuneração base e subsídios para a saúde.

No Brasil, especialistas apontam um caminho intermediário. Segundo pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o modelo das plataformas cria uma nova configuração de trabalho, marcada pela transferência de custos operacionais, como combustível, manutenção e seguros, para o trabalhador.

Apesar do discurso de autonomia, o funcionamento das plataformas é fortemente baseado em controle digital.

Segundo a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, empresas do setor utilizam sistemas automatizados para definir preços, distribuir corridas e avaliar o desempenho dos motoristas.

Na prática, pesquisadores classificam esse modelo como “subordinação algorítmica”. De acordo com estudos acadêmicos sobre trabalho em plataformas digitais, os algoritmos exercem funções típicas de gestão, como controle de produtividade, aplicação de sanções e definição de acesso ao trabalho.

A falta de transparência é um dos principais pontos de crítica. Motoristas relatam dificuldade em compreender critérios de bloqueio, cálculo de tarifas e distribuição de corridas.

Além das questões econômicas e jurídicas, o setor também enfrenta problemas recorrentes relacionados à segurança.

Segundo reportagens da BBC News e da Folha de S.Paulo, já foram registrados casos de fraudes, uso de contas falsas e falhas em sistemas de verificação de identidade nas plataformas.

No Brasil, os riscos também aparecem nas estatísticas de violência no trânsito. Segundo dados do sistema Infosiga, milhares de pessoas morrem anualmente em acidentes viários, um cenário que impacta diretamente trabalhadores que passam longas jornadas ao volante.

Além disso, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, crimes como roubos e sequestros relâmpago têm ocorrido em grandes centros urbanos, atingindo também motoristas de aplicativo.

O avanço das plataformas consolidou um novo padrão de consumo: rápido, acessível e digital. Mas, por trás da conveniência, existe um modelo sustentado por uma desigualdade.

De um lado, empresas com faturamento bilionário e expansão global. Do outro, trabalhadores expostos a jornadas extensas, instabilidade financeira e riscos constantes.

Como apontam pesquisadores e órgãos públicos, o debate já não se limita à tecnologia, mas à própria estrutura do trabalho moderno.