Esquema em Monte Alto submetia gatos à desnutrição e doenças graves em transfusões inadequadas e com fins lucrativos.
Por Tauany Ferreira
A transfusão de sangue animal, um gesto de colaboração e cuidado, foi deturpada por uma organização criminosa em Monte Alto (SP). Tutores de gatos eram aliciados em um esquema de pirâmide para comercializar o sangue dos próprios animais de estimação. A mentora do esquema, que trabalhava em uma clínica veterinária, prometia lucro fácil, pagando cinquenta reais por animal levado e mais vinte reais para cada novo tutor trazido ao grupo. A doação de sangue felina não é ilegal, mas a comercialização de sangue animal é proibida no Brasil.
A engenheira ambiental Daniela Barizi contou que a denúncia ganhou grande repercussão entre a população e a mídia. O caso começou no dia 4 de outubro de 2025, a partir de uma publicação em status do aplicativo WhatsApp. No conteúdo, uma pessoa informava que, ao doar um gato para coleta de sangue, o tutor receberia o dinheiro sob a justificativa de que estaria ajudando outros animais.

Print do status publicado no whatsapp informando sobre a doação de sangue – Crédito: Arquivo Pessoal
Desconfiada da proposta, feita por alguém que aparentemente desconhecia a ilegalidade do esquema, Barizi pediu o contato e fingiu interesse. A estratégia era se aproximar para entender o funcionamento e reunir provas.
No primeiro contato, a engenheira enviou uma mensagem dizendo que tinha três gatos e gostaria de saber como funcionava a doação. A resposta veio em forma de áudio, e levantou ainda mais suspeitas.
Diante da proposta, Daniela questionou se havia algum tipo de documentação que formalizasse a doação. A resposta reforçou a irregularidade do procedimento.
Print de conversa entre Daniela Barizi e mulher que explicava como funcionava a suposta doação de sangue – Crédito: Arquivo Pessoal
Apesar da promessa de que o sangue seria utilizado para salvar outros animais, não havia qualquer autorização formal, e as coletas eram realizadas nas casas dos tutores, sem estrutura adequada ou acompanhamento veterinário.
A partir disso, a denunciante decidiu acionar o secretário de Meio Ambiente do município, seu superior na época, e passou a colaborar com as autoridades. Para evitar riscos, optou por não receber a suspeita em casa. “Eu fiquei com medo. Tanto dela saber onde eu moro quanto de não dar tempo da polícia chegar”, relata.
Segundo Daniela, a mulher sugeriu um encontro após atender outra suposta coleta em um bairro próximo. Aproveitando a situação, a denunciante informou que poderia levar os animais até o local indicado – o que facilitou a ação das autoridades.
“Eu falei que tinha três gatos e que uma amiga tinha mais cinco. Acho que isso chamou a atenção dela. Ela passou o endereço”, conta.
Com as informações, Daniela acionou a Guarda Civil Municipal e a equipe da Secretaria de Meio Ambiente, que foram até o local onde funcionava a suposta clínica veterinária. No imóvel, cinco pessoas foram encontradas.

Gatos em estado crítico encontrados no local onde era realizada a coleta irregular de sangue – Crédito: Arquivo pessoal
De acordo com a denunciante, um dos animais estava em estado crítico, com sinais de anemia e prostração, possivelmente em decorrência da retirada irregular de sangue. O gato foi socorrido imediatamente pela equipe veterinária da prefeitura.
Ao relembrar o caso, Daniela afirma que ainda teme represálias. “Eu pensei: ‘esse pessoal pode fazer alguma coisa contra mim’. Fiquei com medo”, diz.
Apesar da operação, ela acredita que a responsabilização dos envolvidos não foi efetiva. “O estudante de medicina veterinária foi preso, mas depois foi solto. Ninguém ficou preso preventivamente”, afirma.
O que diz a Polícia Civil
Segundo a Polícia Civil, ao serem questionados, um dos envolvidos afirmou ser estudante de Medicina Veterinária, enquanto os demais se identificaram como auxiliares. Eles relataram que realizavam coletas de sangue de gatos para envio a uma clínica em São José do Rio Preto, há 120 km de Monte Alto, onde o material seria utilizado em transfusões.
Ainda de acordo com os suspeitos, havia pagamento aos agenciadores para a captação de novos tutores e gatos : cerca de R$ 300 para um dos integrantes e aproximadamente R$ 100 para os demais.
O delegado Marcelo Lourenço, responsável pelo caso, explicou que as condições em que o esquema operava foram determinantes para a caracterização do crime. “Essa situação, somada a um ambiente insalubre e à forma inadequada de retirada do sangue, resultou na configuração de maus-tratos e também na associação criminosa”, afirmou.
Segundo o delegado, três indivíduos foram denunciados pelos crimes de maus-tratos e associação criminosa. Ele também destacou que uma das pessoas responsáveis por recrutar tutores na cidade de Monte Alto já é investigada em outros três inquéritos em andamento. Marcelo Lourenço detalhou ainda como funcionava o esquema:
“É como se houvesse uma sede em São José do Rio Preto, enquanto Monte Alto funcionava como um dos pontos de coleta de sangue de gatos.”
Após a operação, todos os gatos que estavam na casa foram resgatados, acolhidos por uma ONG, submetidos a exames veterinários e, posteriormente, encaminhados para adoção.




Gatos resgatados e encaminhados para adoção – Crédito: Arquivo Pessoal
Casos de maus-tratos são frequentes na cidade
A realidade observada no caso não é isolada. Em Monte Alto, município com pouco mais de 47 mil habitantes, segundo o Censo de 2022 do IBGE, as denúncias de maus-tratos contra animais são frequentes.
De acordo com o delegado, a média é de pelo menos três denúncias por dia, podendo chegar a entre 60 e 80 registros mensais. “Nem toda denúncia, porém, configura crime. Em alguns casos, são situações que exigem orientação ou adaptação por parte do tutor”, explica.
Segundo ele, cada ocorrência passa por uma análise criteriosa antes de qualquer encaminhamento. “Quando há violação dos pilares do bem-estar animal, como conforto, saúde e liberdade de locomoção, há configuração de crime”, completa.
Apesar do alto número de denúncias, apenas uma parte dos casos avança dentro do sistema policial. De acordo com o delegado, entre 20% e 30% das denúncias resultam em algum tipo de verificação inicial. Após análise mais aprofundada, cerca de 40% dos casos seguem para investigação formal. Desses, apenas entre 10% e 15% se transformam, de fato, em inquéritos policiais.
Para o delegado, a punição para crimes de maus-tratos deve ser estendida a outros animais, por exemplo cavalos e gados. “Todos os animais são considerados seres sencientes, ou seja, são capazes de sentir e não devem ser tratados como meros objetos, conforme prevê o Código Civil”, afirma Lourenço.
Caso em Bananal evidência maus-tratos contra animais de grande porte
Não são apenas gatos e cachorros que sofrem maus-tratos. Um caso registrado em agosto de 2025, no município de Bananal, no interior de São Paulo, evidencia a violência também contra animais de grande porte. Um vídeo registrado por celular mostra o momento em que um cavalo teve as patas decepadas pelo próprio tutor.
Laudo aponta que cavalo estava vivo quando teve patas cortadas em Bananal – Crédito: Redes Sociais
Em um vídeo publicado nas redes sociais, o delegado Rubens Luiz Fonseca, responsável pela investigação, relatou que a Polícia Civil iniciou as diligências ainda no fim de semana em que o caso veio à tona. Segundo ele, já na segunda-feira seguinte, os autores, testemunhas e o local dos fatos haviam sido identificados.
“Realizamos todas as diligências necessárias e já remetemos o caso ao Ministério Público”, afirmou.
De acordo com o delegado, a investigação contou com o apoio técnico da médica veterinária Luana Gesualdi, que auxiliou na análise pericial do animal. O laudo, posteriormente encaminhado ao Poder Judiciário, reuniu informações detalhadas sobre as condições em que o cavalo foi encontrado e sobre os ferimentos identificados durante os exames.
Segundo o delegado, os indícios periciais confirmaram que as mutilações ocorreram enquanto o animal ainda estava vivo. A veterinária explicou que a presença de hematomas foi determinante para essa conclusão, já que esse tipo de lesão só ocorre com circulação sanguínea ativa. O laudo também apontou que o cavalo havia sido levado a um estado extremo de exaustão antes da agressão, o que pode ter reduzido a pressão sanguínea e explicado a baixa quantidade de sangue visível na cena.
Ainda de acordo com o delegado, há indícios de que o responsável pelo crime acreditava que o animal já estivesse morto no momento da mutilação, possivelmente em razão da falta de conhecimento técnico ou até mesmo por estar sob efeito de álcool. Apesar disso, o conjunto de provas reunidas confirmou a prática de maus-tratos, e o caso foi encaminhado às autoridades competentes para as devidas providências legais.
O autor do crime, Andrey Guilherme Nogueira de Queiroz, de 21 anos, confessou a prática e responde ao processo em liberdade.
Denúncias aumentam, mas punições ainda são questionadas
Casos como o de Monte Alto e Bananal não são isolados. Em diferentes regiões do país, o número de denúncias de maus-tratos contra animais tem crescido nos últimos anos, levantando questionamentos sobre a efetividade das investigações e das punições aplicadas.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que o Brasil registra, em média, 13 denúncias por dia. Em 2025, foram cerca de 5 mil ações judiciais relacionadas ao crime, um aumento de 20% em relação a 2024 e de 1.900% na comparação com 2020.
A especialista em Direito Animal, Maria Cândida Azevedo, afirma que não é possível apontar com precisão as causas do aumento, mas destaca que a mudança na legislação pode estar relacionada a esse cenário. Segundo ela, a ampliação da pena para casos de maus-tratos contra cães e gatos, em 2020, elevou o crime a um patamar mais grave, deixando de ser considerado de menor potencial ofensivo.
“Antes, muitas ocorrências sequer eram levadas adiante ou resultavam apenas em termos circunstanciados. Com a pena mínima de dois anos, há possibilidade de reclusão, o que pode ter contribuído para o aumento no número de ações judiciais”, explica.
No cenário local, a tendência também é de alta. Em Ribeirão Preto, o Relatório de Pequenos Animais da Divisão de Bem-Estar Animal registrou 220 casos de maus-tratos contra cães e gatos entre janeiro e agosto de 2025. O número representa um crescimento de 56% em relação a todo o ano de 2024, quando foram contabilizados 141 casos.
Apesar do aumento das denúncias e dos processos, os dados indicam que nem todos os casos avançam até uma decisão judicial. Levantamento publicado pelo JusBrasil mostra que o número de decisões passou de cerca de 1,1 mil em 2020 para aproximadamente 2,8 mil em 2025. O maior crescimento ocorreu entre 2023 e 2024, com alta de 24%, enquanto em 2025 o avanço foi de 8%.
Na prática, os números revelam um descompasso entre o volume de denúncias e os casos que resultam em julgamento, o que levanta questionamentos sobre a efetividade da responsabilização dos envolvidos.
O dia a dia de quem combate os maus-tratos
Para organizações que atuam na proteção animal, os números refletem uma realidade já conhecida no dia a dia. O Projeto Florzinha Cão Cuidado, criado em 2014 por Amanda Gonçalves, atende animais em situação de vulnerabilidade, independentemente de serem domésticos, silvestres ou de grande porte. “Se precisar de ajuda, e se a gente conseguir, a gente ajuda”, afirma a fundadora.
A iniciativa conta com dois espaços fixos: um destinado ao abrigo dos animais e outro voltado ao atendimento veterinário – onde ficam os animais mais debilitados. Os endereços não são divulgados, como forma de evitar o abandono no local. Segundo Amanda, o número de resgates por maus-tratos já ultrapassa 5 mil. Diariamente, o projeto recebe, em média, de 30 a 40 denúncias.
Entre os casos atendidos, um marcou a trajetória da ONG: o da cadela Ronda. “O tutor agrediu ela violentamente, e até hoje ela tem displasia”, relata.
De acordo com o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), a displasia coxofemoral é uma alteração na articulação do quadril que provoca dor crônica e dificuldade de locomoção.
Ainda de acordo com Gonçalves, o caso ganhou repercussão e contribuiu para a criação de uma legislação municipal voltada à proteção animal, que passou a levar o nome da cadela. O projeto de lei determina que autores de maus-tratos a animais no município paguem as despesas relativas à assistência veterinária.
Para Amanda, o sistema de justiça não tem respondido adequadamente a esses crimes. “A punição deveria ser mais rígida, com penas maiores, acima de 20 anos, e multas mais altas. Hoje, muitos recorrem e nem pagam”, comentou Amanda.
Entre lacunas legais e barreiras culturais, punição ainda é limitada
A legislação é antropocêntrica, isto é, ela protege os animais apenas em função dos interesses humanos. Apesar do aumento das denúncias, a responsabilização por crimes de maus-tratos ainda enfrenta entraves estruturais no Brasil. A avaliação é da especialista em Direito Animal, Maria Cândida Azevedo.
Segundo ela, embora o crime não esteja previsto no Código Penal, há uma legislação específica que trata do tema: a Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98). O artigo 32 estabelece pena de detenção de três meses a um ano, além de multa, para quem praticar abuso ou maus-tratos contra animais.
A especialista explica, no entanto, que a própria construção da lei revela uma limitação importante. “Trata-se de uma legislação baseada em uma perspectiva antropocêntrica, ou seja, pensada a partir dos interesses humanos. Os animais ainda são vistos juridicamente como objetos, e não como sujeitos de direitos”, afirma.
De acordo com Azevedo, esse fator contribui diretamente para a dificuldade de avanço nas condenações. Entre os principais entraves, ela destaca o chamado “especismo seletivo”, conceito que diferencia a forma como determinadas espécies são protegidas.
“Existe uma tendência de proteger mais cães e gatos, enquanto outros animais, como bovinos e equinos, acabam excluídos dessa lógica. Em alguns casos, o Judiciário sequer reconhece maus-tratos quando há interesse econômico envolvido”, explica.
Outro desafio está na produção de provas. Como os animais não conseguem se expressar, os casos dependem, muitas vezes, de registros, laudos veterinários e denúncias da população. “A dificuldade probatória é grande. Por isso, é fundamental que a sociedade denuncie sempre que identificar situações de abuso”, ressalta.
Além disso, fatores culturais também influenciam na subnotificação. Segundo a especialista, práticas violentas ainda são naturalizadas em determinados contextos. “Muitas vezes, condutas claramente abusivas não são reconhecidas como maus-tratos, o que impede que os casos avancem”, comenta Azevedo.
Em 2020, a legislação passou por uma mudança significativa: a pena para maus-tratos contra cães e gatos foi ampliada, passando para reclusão de dois a cinco anos, além de multa e proibição de guarda. Ainda assim, Azevedo aponta que a alteração reforça a desigualdade na proteção entre espécies.
“Essa diferenciação evidencia novamente o especismo seletivo. Protegemos mais alguns animais do que outros, com base em critérios culturais”, pontua.
Na prática, porém, o número de condenações ainda é baixo. Mesmo em casos de grande repercussão, a responsabilização dos envolvidos nem sempre ocorre. Como alternativa, a especialista destaca a proibição de guarda como uma das medidas mais eficazes.
Sobre casos como o de Monte Alto, que envolvem a coleta irregular de sangue de gatos, Azevedo afirma que a prática pode configurar maus-tratos, especialmente quando há finalidade lucrativa e ausência de critérios técnicos.
“A doação de sangue é permitida, desde que siga normas rigorosas, como condições de saúde do animal e acompanhamento veterinário. Já a comercialização, sem controle e visando lucro, costuma ser enquadrada como maus-tratos”, destaca. Por fim, a especialista reforça que ainda existem lacunas na legislação que dificultam a punição dos responsáveis.
“A legislação é antropocêntrica, isto é, ela protege os animais apenas em função dos interesses humanos”, conclui Azevedo.

