O jogo mudou: a nova guerra ideológica dos gamers

Influenciadores, algoritmos e comunidades online impulsionam debates políticos, ampliam discursos de ódio e redefinem o papel do entretenimento entre jovens jogadores.

Victor Germano

Entre partidas online e transmissões ao vivo, o que antes era apenas entretenimento tem se transformado em palco de disputas ideológicas. Nos últimos anos, influenciadores do universo gamer passaram a incorporar discursos políticos em seus conteúdos, mobilizando audiências de milhões de seguidores, em grande parte jovens, e ampliando debates que vão além dos jogos.

Um levantamento recente da organização internacional Anti-Defamation League indica que os ambientes multiplayer seguem marcados por altos índices de assédio e discriminação. Segundo o relatório “Hate is No Game”, divulgado em 2024, cerca de 75% dos jovens entre 10 e 17 anos afirmaram ter sofrido algum tipo de assédio em jogos online. Além disso, 37% relataram ataques relacionados à identidade, envolvendo gênero, raça, orientação sexual ou religião.

Especialistas apontam que a crescente politização desses espaços, impulsionada por criadores de conteúdo e pelos algoritmos de plataformas como YouTube, Twitch e TikTok, pode estar contribuindo para a disseminação de discursos ofensivos e para a radicalização de parte do público gamer.

A construção de uma comunidade

Para a psicóloga Carolina Gualqui, mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de São Paulo, a comunidade gamer se tornou um ambiente propício para disputas ideológicas porque oferece um forte senso de pertencimento. “Os espaços de socialização funcionam como microssistemas comunitários. Quando grupos com agendas políticas específicas instrumentalizam esses espaços, eles se aproveitam da identificação grupal já estabelecida para introduzir narrativas ideológicas”, explica.

De acordo com Deborah Rodriguez, doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora da Universidade Autônoma de Barcelona, esse processo está diretamente ligado à lógica das plataformas digitais. “Se um conteúdo recebe engajamento suficiente e se adequa a determinados padrões de consumo, torna-se elegível para ser recomendado a outros usuários”, relata.

Ela afirma que a capacidade de viralização favorece conteúdos simplificados e emocionalmente apelativos.

“A simplificação é, ao mesmo tempo, o ponto crítico e o ponto forte desses discursos para atingir mais pessoas.”

Na avaliação de Carolina, os próprios algoritmos favorecem esse processo de radicalização. “Os algoritmos são desenhados para maximizar o tempo de tela, e o cérebro humano é biologicamente hiperatento a estímulos que geram ameaça, indignação ou novidade”, explica. Segundo ela, esse funcionamento alimenta o viés de confirmação e faz com que discursos antes considerados extremos passem a parecer normais dentro dessas bolhas digitais.

A transformação não ocorreu de forma abrupta. Com a popularização do YouTube e das plataformas de streaming ao longo dos anos 2000, criadores de conteúdo passaram a ocupar um espaço antes restrito à imprensa especializada. A proximidade com o público e a linguagem informal consolidaram esses influenciadores como referências dentro da comunidade gamer. Sem os filtros editoriais do jornalismo tradicional, no entanto, esses canais também se tornaram terreno fértil para a circulação de posicionamentos políticos, teorias conspiratórias e discursos polarizados.

Carolina diz que essa relação cria vínculos emocionais que ultrapassam o entretenimento. “O seguidor desenvolve um vínculo de intimidade unilateral, percebendo o influenciador como um amigo ou mentor confiável. Quando um influenciador valida um discurso político, a validação emocional substitui o escrutínio lógico”, afirma.

Fenômeno identitário

Nesse cenário, a ausência de mediação também contribui para a formação de novas referências. “Muitas pessoas vêm crescendo com canais de política sem ocupar lugares de autoridade, no sentido de formação, preparo ou ética e, ainda assim, acabam se tornando referências para determinados grupos”, aborda Deborah.

Esse movimento dialoga diretamente com fenômenos internacionais, como o Gamergate, considerado um dos marcos da politização contemporânea da cultura gamer. Surgido em 2014, nos Estados Unidos, o Gamergate começou a partir de acusações envolvendo ética no jornalismo de games, mas rapidamente se transformou em uma campanha de assédio virtual direcionada principalmente contra mulheres da indústria dos jogos, jornalistas e desenvolvedoras independentes.

Embora participantes do movimento alegassem defender “ética no jornalismo gamer”, foi apontado que o evento consolidou práticas de perseguição virtual e fortaleceu comunidades alinhadas a discursos antifeministas e conservadores.

Mais de dez anos depois, muitas das estratégias utilizadas durante o Gamergate ainda permanecem presentes em comunidades online. Termos como “woke”, “lacração” e “agenda política nos games” passaram a circular com frequência em discussões envolvendo diversidade dentro da indústria dos jogos.

Para Carolina, esse tipo de retórica costuma se apoiar em mecanismos psicológicos ligados ao sentimento de ameaça. “Ela frequentemente se origina de reações conservadoras a mudanças culturais rápidas”, informa. Segundo a especialista, muitos grupos passam a se enxergar como vítimas perseguidas, mesmo ocupando posições historicamente dominantes dentro desses espaços.

Segundo Deborah, parte desse fenômeno pode ser explicada por fatores sociais mais amplos. “A precarização da vida e a apatia política facilitam o encantamento com discursos extremistas”, afirma. Ela explica que essas narrativas costumam simplificar problemas complexos e criar inimigos simbólicos, como o chamado “wokismo” ou um suposto “sistema”.

Essa percepção também aparece entre os próprios jogadores. “Sim, existe uma resistência à diversidade assim como nos esportes tradicionais. Ocorreram casos de preconceito vindo de influenciadores, algo que comumente é reproduzido por jogadores”, diz o estudante e gamer Marcos Henrique, de 23 anos.

Carolina aponta que a radicalização dentro dessas comunidades nem sempre começa de forma explícita. “Ela inicia com piadas politicamente incorretas, sátiras e o uso de termos codificados”, explica. Segundo a psicóloga, o humor funciona como uma forma de dessensibilização gradual, normalizando discursos preconceituosos sob a justificativa de que seriam “apenas brincadeiras”.

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Comentários criminosos com tons misóginos em partida de League of Legends.

A estudante Clara Moreira, de 20 anos, também identifica essa dificuldade de aceitação como algo estrutural dentro da comunidade. “A comunidade gamer é, em maioria, administrada por homens. Então, quando algo difere dessa hegemonia, é mais difícil a aceitação”, alega. Ela relembra a repercussão de lançamentos recentes para ilustrar o problema. “Quando lançou The Last of Us Part II, em que a Ellie teria uma companheira, a aceitação do público gamer foi dificílima.”

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Continuação de comentários ofensivos em partida de League of Legends.

Marcos relata que esse tipo de comportamento faz parte da rotina nos jogos competitivos. “Diversas vezes os jogadores cometem o chamado ‘rage’, onde atacam o outro de maneira descabida e passam a proferir ofensas de todos os níveis.” Ele declara já ter sido alvo e testemunha de ataques em diferentes espaços das plataformas.

Para Carolina, adolescentes e jovens adultos estão entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de dinâmica. Ela explica que regiões do cérebro ligadas ao julgamento crítico e ao controle emocional ainda estão em desenvolvimento nessa fase da vida. “Os riscos sociais incluem alta suscetibilidade ao contágio social, dessensibilização afetiva em relação ao sofrimento alheio e adoção de comportamentos extremistas como forma de autoafirmação”, comunica.

ALERTA DE GATILHO: Violência e alusão à automutilação

Comentários ofensivos em partida de Valorant.

Para Deborah, esse cenário também se relaciona com a falta de regulação e de mediação nesses ambientes. “A possibilidade de habitar essas plataformas de forma prolongada sem estar sujeito a uma ética contribui para a disseminação dessas dinâmicas”, afirma.

Impactos em escala

A presença de personagens diversos também se tornou um ponto de tensão dentro da comunidade. Enquanto Marcos relativiza o impacto na jogabilidade, Clara destaca a intensidade das reações. “Vi gente organizando mutirões para prejudicar avaliações e atacar jogos com temáticas LGBT”, relata. Ainda assim, ela aponta efeitos positivos: “A inclusão amplia o debate e mostra que existem outras narrativas e protagonistas possíveis.”

A reprodução desses discursos também ocorre fora das partidas. Consumidores de conteúdo gamer relatam perceber a presença crescente de temas políticos em canais antes voltados exclusivamente ao entretenimento.

Marcos cita exemplos de criadores populares e observa que posicionamentos políticos aparecem de forma explícita, embora nem sempre influenciem sua visão pessoal. Já Clara destaca que existem bolhas mais positivas dentro da comunidade. “Vejo influenciadores com um olhar mais humanitário, com uma linha menos violenta”, declara. Entretanto, ela avalia que o cenário geral tem se tornado mais polarizado. “O ambiente gamer ficou mais politizado, mas de uma forma negativa, com narrativas mais conservadoras sendo disseminadas.”

A discussão esbarra na responsabilidade das plataformas. Empresas como YouTube e Twitch afirmam possuir políticas contra discurso de ódio e mecanismos de moderação de conteúdo. Porém, pesquisadores e organizações apontam limitações na aplicação dessas diretrizes, especialmente diante da velocidade de circulação dos conteúdos e do funcionamento dos algoritmos de recomendação.

Para Deborah, é fundamental diferenciar opinião de violência. “A opinião política abre espaço para o debate construtivo, enquanto o discurso de ódio se caracteriza por ataques a grupos, frequentemente minorias”, comunica. Segundo ela, racismo, xenofobia e machismo não podem ser confundidos com liberdade de expressão.

Carolina também defende que existe uma diferença clara entre crítica política e discurso de ódio.

“A crítica a agendas ideológicas é legítima dentro do pluralismo democrático. A linha é cruzada quando o discurso passa a desumanizar indivíduos ou incentivar discriminação contra minorias”, afirma.

A psicóloga também alerta para os riscos de uma regulação mal conduzida nas plataformas digitais. “Se as regras forem vagas ou baseadas em conceitos subjetivos, abre-se espaço para abusos de moderação e para o silenciamento de debates legítimos”, informa. Segundo ela, o foco deveria estar na transparência dos algoritmos e no combate a comportamentos criminosos coordenados.

Na visão de Marcos, o problema também é estrutural. “As plataformas parecem não ter força suficiente para punir todos os jogadores tóxicos”, declara.

Para Carolina, a responsabilidade não está apenas nos criadores de conteúdo ou no público isoladamente. “Trata-se de uma retroalimentação sistêmica”, alega. Segundo ela, influenciadores utilizam estratégias de engajamento que monetizam conflitos, enquanto plataformas impulsionam conteúdos emocionalmente intensos e usuários chegam a esses espaços já carregando frustrações e vulnerabilidades emocionais.

O universo gamer se firma como mais do que uma indústria bilionária. Ele se torna também um território de influência política em expansão. Em um espaço onde milhões de jovens constroem referências, consomem informação e formam visões de mundo, a linha entre jogar e formar opinião se torna cada vez mais tênue.