Não é um sábado qualquer, é sábado de hambúrguer

Voluntários transformam comida em ponto de encontro, troca e cuidado em territórios marcados pela insegurança alimentar

Por Isabella Capuzzo e Tauany Ferreira

Mais do que comida, um momento de alegria e cuidado na Hamburgada do Bem / Crédito: Tauany Ferreira
Crianças comem hambúrguer durante a Hamburgada do Bem, em Ribeirão Preto. Crédito: Tauany Ferreira
Reportagem em audiodescrição

É sábado. Seis da manhã. Ainda está escuro quando ônibus e carros cruzam a cidade vindos de diferentes direções, mas com o mesmo destino. Para os 250 voluntários da Hamburgada do Bem, aquele não seria um sábado qualquer. Faltavam pouco mais de 12 dias para o Natal quando eles decidiram acordar cedo, vestir camisetas iguais e repetir um ritual já conhecido: trabalhar gratuitamente na última edição do projeto em 2025, em Ribeirão Preto (SP).

Em outro ponto da cidade, por volta das nove horas, uma mãe chama a filha para acordar. Para ela, ainda é cedo. Para a criança, é tarde demais para conter a ansiedade. O motivo do chamado cabe em uma frase simples, dita como promessa: “hoje você vai comer hambúrguer”. A notícia basta para acelerar o banho, a roupa e o caminho até a escola onde, dali a pouco, o pátio ganharia cor, barulho e movimento.

Enquanto isso, os voluntários organizam as oficinas, ajustam os últimos detalhes, dividem tarefas e ocupam seus postos. Ainda há silêncio. Um silêncio breve, atravessado pela expectativa de que tudo esteja pronto antes da chegada das crianças. Na cozinha, se ouve o som metálico das panelas que começam a esquentar. No pátio, potes de tintas são abertos e separados enquanto a decoração preenche cuidadosamente o ambiente. Em uma das salas, mesas baixas recebem papéis coloridos, lápis e canetinhas. Tudo pronto à espera das histórias que ainda não foram contadas.

Às 10h30, o silêncio se rompe de vez. O som das fichas de cadastro sendo preenchidas pelas mães, das crianças correndo, das primeiras gargalhadas e dos chamados entre voluntários marca o início oficial do dia. Assim começou a última Hamburgada do Bem de 2025, na Escola Municipal Teresa Hendrica Antonissen, no Jardim Aeroporto, zona Norte de Ribeirão Preto (SP).

Crianças experimentam hambúrguer pela primeira vez durante a Hamburgada do Bem que aconteceu em Ribeirão Preto (SP) / Crédito: Tauany Ferreira

Quando o lanche vira ponto de partida

Criada em 2015, em Guarulhos (SP), a Hamburgada do Bem nasceu com a proposta de usar um lanche como ponto de partida para promover a integração entre voluntários e crianças de comunidades em situação de vulnerabilidade social. O que começou como uma iniciativa local se expandiu ao longo dos anos e, hoje, está presente em seis países, entre eles Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Ao longo da trajetória, o projeto afirma ter atendido mais de 200 mil crianças, com a participação de mais de 80 mil voluntários.

A Organização Não Governamental (ONG) chegou em Ribeirão Preto (SP) em 2016, tornando a cidade uma das primeiras fora da capital paulista a receber o projeto. Quase uma década depois, a iniciativa segue ativa no município, com edições mensais e ações complementares. Segundo a organização local, mais de 10 mil crianças já participaram das atividades  na região.

Desde 2017, Marina Okumdo acompanha de perto essa trajetória. Ela começou como voluntária e hoje integra a liderança do projeto. É quem articula a escolha das escolas, o contato com redes de ensino, o planejamento das atividades e a mobilização dos voluntários. Para que os encontros aconteçam, os próprios voluntários contribuem financeiramente. 

“A inscrição tem uma taxa que custeia a alimentação do voluntário e de mais uma criança”, explica Marina. O valor de R$ 49,00, pago como uma forma de doação, também é utilizado na compra de materiais como tintas, massinhas, giz, papéis, além do aluguel de brinquedos e da montagem da estrutura necessária para receber as crianças. O evento conta, ainda, com o apoio de empresas parceiras.

“É por meio da doação dos voluntários e dessas parcerias que a gente consegue custear mais de 70% do evento e montar toda essa estrutura para oferecer um dia diferente para as crianças”, afirma.

A hamburgada é organizada em cinco frentes que se distribuem pelo espaço e pelo tempo do dia. Na recreação, voluntários conduzem brincadeiras, dinâmicas e oficinas que ocupam o pátio e as salas. A equipe de logística controla a entrada e a saída das crianças, garantindo que cada chegada e cada despedida aconteça com segurança. 

Na cozinha, os hambúrgueres são preparados na churrasqueira, entre o calor da grelha, o cheiro da carne e o ritmo contínuo de mãos que não param. O projeto ‘Sorriso do Amor’ reúne estudantes e profissionais da odontologia, responsáveis pela escovação e pela avaliação dos dentes de cada criança. 

Já os fotógrafos circulam em silêncio atento, responsáveis por registrar gestos, encontros e cenas que não se repetem.

A lógica é simples: o alimento é o convite. O hambúrguer, servido com batata frita e sobremesa, funciona como porta de entrada para algo maior — o encontro. E, ali, o encontro, não acontece por acaso.

Além do hambúrguer, projeto busca trazer vivências, trocas e experiências com entre voluntários e público do projeto. Créditos: Tauany Ferreira

Qual é o tamanho da fome? 

Para a antropóloga Keytyane Verônica da Silva Medeiros, mestra em Antropologia Social pela USP, a alimentação não pode ser entendida apenas como necessidade biológica. Comer, segundo ela, é também um ato social.

“O espaço do comer é um espaço onde você é visto e vê o outro. É um momento de integração, de pertencimento. Quando falamos de insegurança alimentar, falamos também da ruptura desses espaços.”

Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. Em Ribeirão Preto (SP), 43% das famílias ficaram sem comida em casa ao longo de 2024, segundo pesquisa da Fundação Seade. O índice coloca o município entre os que mais registraram falta efetiva de alimentos no interior paulista, em patamar semelhante ao de cidades como Osasco (SP) e abaixo apenas de Guarulhos (SP).

Antes que a comida falte por completo, a dificuldade já aparece na rotina. No mesmo período, 57% das famílias da cidade deixaram de comprar algum item de alimento por falta de dinheiro, um movimento que começa pela qualidade e pela variedade da comida. Para parte delas, a restrição avançou: em 25% dos lares, ao menos uma pessoa deixou de fazer alguma refeição por não ter comida suficiente. Em 17%, a situação chegou à fome declarada, quando faltaram alimentos e também recursos para comprá-los.

Para tentar atravessar esse período, as famílias adotam estratégias de sobrevivência. A maioria deixou de comer fora, passou a comprar marcas mais baratas e relatou uma alimentação menos saudável e menos variada. Apenas 14% receberam cesta básica no período analisado, número inferior ao total de famílias que passaram fome.

Crédito: Isabella Capuzzo e Tauany Ferreira


É nesse contexto que, em uma escola de bairro vulnerável, o hambúrguer começa a ser montado ainda antes das crianças chegarem. Na cozinha improvisada, longe do barulho do pátio, o cheiro da carne na chapa se mistura ao som de conversas apressadas e utensílios sendo organizados. Ali, o lanche, que parece algo simples, carrega outra dimensão.

O cardápio da Hamburgada do Bem é o mesmo em todas as edições: hambúrguer, batata e sobremesa. A escolha, segundo Okumdo, não é aleatória. “A hamburgada usa o lanche como um convite. É o que aproxima as crianças. A partir disso, a gente consegue acolher, brincar, ouvir, orientar. O hambúrguer é o começo da conversa.”

Na linha de frente da cozinha, Fabiano Jorge Bittar monta os lanches que serão distribuídos ao longo do dia. Voluntário pela sétima vez, ele acompanha o ritmo acelerado da produção.

“Muitas vezes a gente vem achando que vai ajudar alguém, mas, no fim, somos nós que saímos ajudados”, conta. “É gratificante saber que esse lanche, que pra muita gente é comum, para algumas crianças é novidade. Às vezes é a primeira vez que uma criança está comendo um hambúrguer.”

O custo da comida amplia esse cenário. Segundo o Instituto Pacto Contra a Fome, a cesta considerada ideal para uma alimentação saudável custava R$ 432 por pessoa, em abril de 2025 — o equivalente a 21,4% da renda média per capita do brasileiro. O levantamento aponta que mais de 70% da população não dispõe de renda suficiente para manter uma alimentação adequada ao longo do mês.

Keytyane explica que ações desse tipo ajudam a enfrentar o aspecto imediato da fome, mas também revelam algo mais profundo. “A insegurança alimentar não é só a ausência de comida. Ela envolve instabilidade, incerteza, qualidade e quantidade. Envolve salário, trabalho, acesso, políticas públicas. Por isso, o alimento tem esse peso simbólico tão grande.”

Histórias que atravessam fronteiras

A lógica solidária também atravessa fronteiras. Barbeiro, Luiz Henrique começou como voluntário da Hamburgada do Bem há cerca de um ano. A aproximação veio acompanhando o projeto à distância, até decidir participar. “Foi uma das melhores experiências da minha vida”, resume. Meses depois, surgiu a oportunidade de integrar a Hamburgada Mercosul, uma ação que percorreu Argentina, Paraguai e Uruguai.

O primeiro país foi o Paraguai — e o primeiro impacto veio antes mesmo das atividades. A equipe foi até uma aldeia indígena onde as crianças falavam apenas guarani. “A gente não tinha noção de como ia se comunicar”, contou. Sem o apoio da língua, o grupo precisou encontrar outras formas de aproximação.

Segundo Luiz, foi ali que a essência do projeto se revelou com mais clareza. “A gente entendeu que, independentemente da língua, era só amor.” A conexão veio pelo brincar, pelos gestos, pela presença. “Você precisa quebrar o gelo sem falar nada. É mais difícil, mas foi um dos melhores desafios.”

Apesar das diferenças culturais, ele diz que o vínculo com as crianças acontece da mesma forma. “Quando começa a conexão, eles se entregam. A essência do projeto é a mesma.”

A experiência internacional aprofundou um envolvimento que havia começado no Brasil. Foi em uma das primeiras edições da Hamburgada, ainda em Ribeirão Preto (SP), que Luiz decidiu ir fantasiado de Chaves, personagem que o acompanha desde a infância. “Eu sou apaixonado pelo Chaves. Vim fantasiado e uma criança me adotou”, lembra.

Durante toda a ação, os dois ficaram juntos. No encerramento, na Fábrica de Sonhos, o menino escreveu um pedido que não envolvia brinquedos nem comida. Queria ser “uma pessoa boa, igual ao tio Chaves”. “Quando eu li, eu chorei demais”, contou. “Aquilo me atravessou.”

O vínculo ficou marcado também no corpo. Luiz tatuou frases e símbolos ligados ao projeto, incluindo uma inscrição feita durante a passagem pela Argentina. “Não foi a língua que fez o projeto. Foi o amor”, disse. Para ele, a experiência deixou marcas que vão além do momento. “Mudou alguma coisa em mim.”

Para Keytyane, iniciativas como a Hamburgada do Bem têm papel importante ao dar visibilidade a pessoas e territórios afetados pela fome, mas não substituem políticas estruturais. “Elas ajudam a enfrentar o fenômeno biológico da fome, mas isoladas não resolvem os fatores que levam a essa situação”, explica.

Ela também alerta para o risco de romantizar a solidariedade. “Existe uma troca. Quem recebe não é passivo. São sujeitos com vontades, recusas, escolhas. Quando a gente romantiza demais, corre o risco de apagar essa agência.”

Em Ribeirão Preto (SP), essa dinâmica aparece em pequenos gestos. No espaço da Fantástica Fábrica de Sonhos, voluntários se sentam para ouvir histórias. Nem sempre os sonhos aparecem prontos. Às vezes, surgem como conversa.

“Tem criança que não fala o sonho. Ela fala do que gosta, do que brinca”, contou a professora Carina Angélica, voluntária há mais de uma década. Em uma das edições, uma menina disse que queria experimentar uma pitaia porque achava bonita, mas que nunca tinha comido porque “era cara demais”.

Poucos metros adiante, no pátio da escola, a estudante Nathalia Rocha, de 17 anos, vivia sua primeira experiência como voluntária. Ela foi “adotada” por uma das crianças logo no início da manhã. “Ela sentou no meu colo e não quis mais sair”, contou. “É muito gostoso.”

Voluntária é ‘adotada’ por criança durante a Hamburgada do Bem em Ribeirão Preto (SP)/ Crédito: Tauany Ferreira

Enquanto as oficinas aconteciam, mães observavam os filhos circulando pelo espaço com liberdade. Para a professora Gabriella Aguilar, mãe de uma das crianças atendidas, o sábado fugiu da rotina. “Nem sempre elas têm diversão, entretenimento ou alimentação diferente no bairro. Hoje, ela acordou feliz.”

Keytyane Medeiros, mestre em antropologia, fala sobre a relação entre alimentação, convívio e integração social

Gente precisa de gente pra ser gente 

Quando a tarde se aproxima, o barulho diminui aos poucos. As mesas começam a ser desmontadas. As crianças se despedem com abraços demorados, alguns difíceis de soltar. O pátio volta ao silêncio, agora preenchido por marcas no chão, restos de tinta, papéis esquecidos e um cansaço que não pesa.

Momento da primeira mordida do hambúrguer de uma criança que participou da Hamburgada do Bem em Ribeirão Preto (SP)/ Crédito: Hamburgada do Bem 

A cidade segue com seus problemas. Os dados continuam apontando dificuldades. A insegurança alimentar permanece como desafio diário para milhares de famílias. Mas, naquele sábado, em uma escola de Ribeirão Preto (SP), o prato se encheu.

E junto com ele, algo que não cabe em gráfico nem estatística: o cuidado compartilhado, o tempo dedicado, a escuta atenta e a sensação de pertencimento. Mesmo que por um dia, foi o suficiente para lembrar que, quando o alimento encontra o afeto, a solidariedade deixa de ser exceção e passa a ocupar o centro da mesa.