Levantamento feito pelo Jornal da Barão revela que a modalidade não é desenvolvida como deveria na cidade
Murilo Mendonça

Para Jucilene, mãe da jogadora mirim Isabela Jerônimo, de 8 anos, o futebol é um elemento que ajuda muito a filha nos afazeres do dia a dia, na disciplina e na interação com as outras crianças. No entanto, ela afirma que pessoas próximas reagem com estranheza ao saberem que a filha pratica o esporte. “Quando a gente comenta com amigos e familiares que a Isa está em uma escolinha de futebol, eles ficam surpresos por ela ser menina”, disse a mãe.
A estranheza não é só um sentimento da mãe. Um levantamento realizado pela reportagem, na cidade de Sertãozinho, interior de São Paulo, revela que apenas uma escola de futebol, a Camisa 10, oferece modalidade feminina. Ao todo, foram contactadas 10 escolinhas. Outras seis, aceitam mulheres em times mistos com meninos.
Segundo Luis Fernando, treinador da escolinha São Paulo, de Sertãozinho, isso expõe que o esporte ainda não é trabalhado como deveria para se desenvolver .
Para o treinador da escolinha São Paulo, os principais fatores para isso são o preconceito e a falta de investimento. Na visão dele, o preconceito dos pais é o que mais atrapalha as crianças a se matricularem nas escolas de futebol:
“Eu acredito que ainda tem um tipo de preconceito de alguns pais, algumas mães, em relação às meninas jogarem futebol. E, por isso, talvez as meninas mais novas não ingressam com cinco, seis anos, que é a idade em que os meninos estão entrando”, afirma.
No artigo “Mulheres e futebol: um estudo sobre esporte e preconceito”, os autores abordam este tema a partir de uma pesquisa realizada por meio de um questionário respondido por 47 praticantes do esporte.
Apesar da pouca procura para se matricular em escolinhas, para aprender e aprimorar os fundamentos básicos do esporte, nota-se que, em campeonatos amadores, a procura é bem considerável.
“Aqui na cidade e na região tem campeonato de futsal, tem muito Fut7, muita competição de society. A gente vê que tem umas três competições, só que já são para adultas e acabam também incluindo as crianças. Como é uma coisa que ainda está em formação, se no masculino dá 10, 12 equipes, no feminino vai dar metade, seis ou até menos. Mas tem”, analisa Luís.
Para Julia Barreira, educadora física especialista em futebol feminino, a falta de adesão na base preocupa e ameaça o futuro: “Acho que essa ausência de escolas específicas para as meninas, acabam fazendo com que a gente perca muitas dessas jogadoras em potencial, ou forme jogadoras de alto nível.”
Segundo levantamento da Women in Football (WIF), 78% das mulheres já sofreram discriminação ou assédio no futebol. O dado evidencia que, para muitas meninas, o ingresso e a permanência no esporte ainda são atravessados por barreiras estruturais que vão além das quatro linhas.
“A maior dificuldade é o preconceito que existe, não só com a menina, com a mulher no futebol, como em outras áreas também existe muito preconceito”, disse Jucilene.
A falta de valorização e de estrutura no esporte
E, se nas grandes cidades o desenvolvimento já caminha a passos lentos, no interior a falta de estrutura se intensifica. Um dos maiores problemas talvez seja a falta de seriedade com que a modalidade é tratada:
“Aqui eu vejo que a modalidade é tratada apenas no âmbito social, pois a prefeitura exige essa aceitação. Não é algo com um olhar competitivo”, disse Luís.
Compartilhando do mesmo pensamento, Julia comenta: “Enquanto esse desenvolvimento for promovido por pessoas que estão sendo obrigadas, mas que de fato não tem um vínculo ou não conseguem ver um propósito nesse desenvolvimento, o esporte vai estar sendo minimizado.“
Um argumento frequentemente usado por parte do público para não consumir a modalidade é a comparação direta com o futebol masculino, apontando um suposto nível técnico inferior.
“Quando eu escuto aquele discurso: “Ah, eu não assisto futebol feminino porque não é tão bonito”. Eu entendo que esse futebol feminino hoje ainda vai ter algumas limitações porque é um reflexo do processo de formação dessas jogadoras que não tem sido adequado”, pontua Julia.
Para Marta, considerada a maior jogadora brasileira de todos os tempos, essa percepção está diretamente ligada ao histórico de menor investimento, já que preconceito e falta de estrutura atrasaram o desenvolvimento da modalidade.
“Percebemos que o preconceito e o machismo acabam travando algumas situações que poderiam ajudar no desenvolvimento, como investir no futebol feminino de maneira que se possa dar a estrutura necessária para o atleta se dedicar 24 horas como profissional, assim como acontece no masculino”, afirma Marta, em entrevista dada à CNN Brasil.
A história ajuda explicar desigualdade
Alguns fatores explicam esse avanço tardio, o principal deles é o tempo. Se voltarmos à história, veremos que o atraso do futebol feminino no Brasil em relação ao masculino, e também em comparação a outros países, não é por acaso.
Isso acontece porque o esporte chegou ao país no começo do século XX, de forma amadora, mas, em 1941, durante o Estado Novo, as mulheres foram proibidas por lei de praticar o esporte, sendo a proibição revogada apenas em 1979, após 38 anos. Enquanto o Brasil proibia, outros países investiram na base.
O maior expoente são os Estados Unidos, que tiveram uma grande virada na década de 70 devido à criação da Lei Title IX, que obrigou escolas e universidades a oferecer igualdade de investimento esportivo para mulheres. Hoje, colhem os frutos, sendo a seleção com mais títulos mundiais, somando quatro conquistas, enquanto o Brasil ainda sonha em conseguir sua primeira taça.
Julia Barreira, analisa a evolução do esporte: “A gente está num momento de transição com o futebol feminino no Brasil. A gente sai de um período em que existia uma proibição legal e, depois, mesmo quando cai essa proibição, ainda existem várias construções sociais que dificultam a presença dessas meninas e mulheres no futebol, para um momento atual que seria quase uma imposição para o desenvolvimento do futebol feminino”.
Para Luís, outro fator que também explica o atraso técnico da modalidade é o começo tardio do treinamento com as meninas, principalmente no interior, onde não existe acompanhamento desde cedo.
“Aqui na nossa região, não temos a cultura de ter, desde os 5, 6 anos, a menina jogando. Quando ela chega ao profissional, essa falta de base é exposta e, conforme a menina vai treinando por mais tempo e com mais frequência, você vai vendo ela melhorar. Então, se isso for estimulado desde cedo, ela chega mais pronta ao profissional. Isso é repetição”.
Cenário do futebol feminino atual
A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) passou a exigir que os clubes da Série A tivessem também a modalidade feminina. Essa regra entrou em vigor em 2019 e foi um ponto de virada, já que isso obrigatoriamente fortalecia o esporte. Mas isso não é unânime entre todos os dirigentes. Recentemente, o canal Dibradoras fez uma denúncia sobre as condições de treinamento que o Flamengo oferece às suas jogadoras.
Em resposta, o presidente do clube, Luiz Eduardo Baptista, deu uma declaração atacando a narradora Renata Silveira, do Grupo Globo, após ela comentar o ocorrido. Além de insultá-la, disse que a culpa de isso acontecer era do veículo em que ela trabalha.
Mas qual é o real custo do futebol feminino para o clube? Em um levantamento feito pelo Lance, com base no clube nordestino Ceará, atualmente na Série B do Campeonato Brasileiro, viu-se que o valor aproximado de despesas é de 1,26 milhão de reais por ano.
É um valor alto, mas não no futebol, já que o mesmo clube tem aproximadamente 105,7 milhões de reais de despesas com o futebol masculino. Por se tratar de um esporte com mais reconhecimento e investimento, o masculino gera receita suficiente para pagar as despesas e ainda obter lucro considerável, por meio de bilheteria, patrocínio, direitos de TV, sócio-torcedor e vendas de jogadores. Diante disso, a despesa do feminino não representa 1% do orçamento anual. Então, quais são as razões para um clube que tem a maior torcida do Brasil, além do maior faturamento, tratar o futebol feminino como um problema?
Para Júlia, o futebol feminino já teve muitos avanços nos últimos anos, mas ainda enfrenta vários desafios: “Tem muitos clubes que simplesmente dão a camisa e não investem de forma adequada no planejamento a longo prazo e na formação dessas jogadoras. Muitas vezes, essas equipes dentro dos clubes são vistas como algo para minimizar o descontentamento e não contam, de fato, com gestores que abraçaram essa causa e querem promover o crescimento, desenvolvendo a modalidade. Além de não oferecerem condições adequadas de treinamento, tanto na base quanto no profissional”, disse Julia.
Dados mostram que além da falta de apoio dos clubes e seus dirigentes, o incentivo do público é pontual.

Esse fato poderia ser explicado pelo preço do ingresso, já que a modalidade não é tão repercutida e, se o valor fosse alto, ficaria insustentável a presença do público. Mas não é isso que acontece. A média de preço dos ingressos fica entre 20 e 40 reais por jogo, incluindo partidas grandes, como finais e clássicos regionais. Já em jogos da seleção, esse valor pode variar de 30 a 100 reais. Fazendo um paralelo com o futebol masculino, onde os preços são mais elevados, a média varia de 40 a 80 reais, podendo chegar de 200 a 450 reais em jogos da seleção brasileira, sem considerar setores mais privilegiados.
A esperança de um futuro melhor
Apesar de todas as dificuldades, e do esporte ainda está se desenvolvendo em marcha lenta, há evoluções que sustentam uma perspectiva de um futuro melhor. Além do crescimento de audiência da elite profissional, já exemplificado, outras categorias como a de base já estão sendo transmitidas, aumentando o engajamento da modalidade.
E em 2027, a CBF tem o projeto de exigir a ampliação de equipes femininas nas quatro divisões do brasileiro, contemplando as séries A, B, C e D, do futebol nacional. Isso pode expandir consideravelmente as oportunidades e elevar o futebol feminino a outro patamar.
Com a Copa do Mundo Feminina sediada no Brasil no próximo ano, há esperança de que isso atraia a atenção das meninas e as incentive a procurar o esporte: “Eu estou percebendo que, agora, chegando perto da Copa do Mundo feminina no ano que vem, muitas meninas jovens estão se interessando pelo futebol e procurando participar”, disse Luis Fernando.
Segundo a ONU Mulheres, o esporte é uma ferramenta importante para a igualdade de gênero. Dito isso, o futebol se torna um investimento inteligente quando promove ações associadas à igualdade de direitos na sociedade.